UENP aprova cotas raciais e sociais para graduação Destaque

Proposta para implantação de ações afirmativas na Universidade foi aprovada por unanimidade durante reunião realizada na reitoria da Instituição Proposta para implantação de ações afirmativas na Universidade foi aprovada por unanimidade durante reunião realizada na reitoria da Instituição

O Conselho Universitário (Consuni) e o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) aprovaram, por unanimidade, na segunda-feira (12/06), a implantação da política de Ações Afirmativas na forma de cotas sociais e raciais para os cursos de graduação da Instituição. Com a decisão, os processos seletivos de ingresso, a partir desse ano, destinarão 40% das vagas para alunos cotistas, sendo 20% delas para candidatos de escolas públicas e outros 20% para autodeclarados negros e também oriundos de escola pública.

A reunião para a votação da proposta, realizada na Sala dos Conselhos da Reitoria, foi presidida pela reitora Fátima Aparecida da Cruz Padoan. “Vivemos um dia histórico para UENP”, enfatizou. A decisão unânime dos conselheiros foi muito comemorada por todos. “Estou extremamente feliz e emocionada por fazer desse momento tão importante para vida da nossa Universidade”, partilhou. A reitora lembrou ainda que as cotas irão proporcionar uma maior diversidade à UENP, possibilitando à instituição o enfrentamento da desigualdade historicamente constituída. “As cotas, mais do que permitir o acesso à Universidade, propicia, a todas as pessoas a quem se destina, a oportunidade de sonhar com um futuro que passa a se desenhar de maneira mais concreta”, destacou.

Com a aprovação, o próximo vestibular da UENP, marcado para os dias 19 e 20 de novembro desse ano, já será realizado com o sistema de cotas. O mesmo percentual será aplicado no processo SiSU. Para apresentação da proposta para a implantação de cotas na Universidade, a Comissão de Estudos de Ações Afirmativas da UENP, formada por professores dos três campi da UENP e estudantes do curso de História da instituição, contou com o apoio do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que foi uma das primeiras universidades do país a implantar as políticas de cotas sociais e raciais. Os trabalhos incluíram ainda a realização de eventos institucionais nos três campi, para discutir o tema e tirar dúvidas da comunidade acadêmica.

Para o vice-reitor da UENP e membro da Comissão, Fabiano Gonçalves Costa, esse trabalho foi fundamental para a implantação. “A comissão realizou um trabalho extenso. Desde a pesquisa e coleta de dados que comprovam a necessidade da implantação das ações afirmativas na UENP, até a elaboração do trabalho científico em cima desses dados. Isso deu credibilidade e respaldo suficientes para que os conselheiros aprovassem a proposta por unanimidade”, destacou. Com a aprovação, “temos de nos preparar para a recepção desses alunos da melhor forma possível. Teremos novos desafios, mas estamos entusiasmados e dispostos a trabalhar”, afirmou.

O professor Antônio Donizete Fernandes, membro da Comissão, destaca que a aprovação tratou-se também de um momento histórico e impar na vida da Universidade. “Nós conseguimos uma proeza com a aprovação das cotas raciais e sociais dada a conjuntura política vivida em nosso país há pelo menos dois anos, tempo de negação de direitos fundamentais”, acentuou. O professor destaca ainda o trabalho da comissão e a contribuição do grupo de professores da UEL. “Tivemos um aprendizado muito grande com o desenvolvimento dos trabalhos. Agora não podemos perder essa capacidade de articulação para o enfrentamento de questões futuras”, enfatizou.

Além dos membros do Consuni e do Cepe, alunos de diversos cursos da UENP também participaram da reunião. Para Tiago Dias Damasceno, estudante do 3º ano de História, a aprovação das ações afirmativas “mostra que a UENP está preocupada em promover a justiça e a igualdade social”. A acadêmica e membro da comissão Ana Paula de Oliveira Gomes, do 2º ano de História, ressaltou que a aprovação das cotas foi fruto de um processo de luta e de muito trabalho. “Eu, como estudante negra, fico muito feliz em ver a Universidade da qual faço parte, dando um passo como esse”, partilha. “É muito bom saber que pessoas que partem da mesma realidade social que eu, terão oportunidade de estar dentro de nossa Universidade. Para muitas famílias, será a primeira geração a chegar ao ensino superior”, acentua Ana Paula.

Durante a reunião, foi aprovada a criação de um Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (NEABI) e de um Núcleo de Apoio e Assistência Estudantil, para apoio e suporte à política institucional de ações afirmativas, além de uma Comissão de Acompanhamento e Avaliação da Política de Ações Afirmativas na UENP (CAAF). A reitora agradeceu e parabenizou o trabalho da Comissão. “Foi extremamente competente para a articulação de todas as discussões que nos conduziram a esse momento máximo da aprovação”. A reitora acentuou ainda a participação dos professores Jairo Pacheco, Maria Nilza e Angela Maria, da UEL, no processo de discussão sobre a temática. “Temos muito a agradecê-los pela disponibilidade e por toda atenção que contribuiu imensamente para implantação das políticas de ações afirmativas na UENP”, finalizou.

Mensagens

No início da reunião, a reitora fez a leitura de duas manifestações em apoio às Políticas de Ações Afirmativas. O primeiro ofício foi assinado pelo professor Pedro Luiz Bonoto, em nome do colegiado de História da UENP. No documento, foi destacado que “O Colegiado do Curso de História da UENP aprovou e vem manifestar, com a totalidade de seu membros docentes e representante discente, amplo e irrestrito apoio às políticas de Ações afirmativas na UENP”. Em outro trecho, ressalta-se que “A Universidade, com esse passo, inscreve-se no rol das instituições que, além de estudar e reconhecer a situação de discriminação de classe, social, cultural e racial, viabiliza políticas para o seu enfrentamento”.

O promotor Wilson Dornelas Rodrigues Filho, do Ministério Público do Estado do Paraná, encaminhou carta destinada aos Conselhos. Em um excerto, o procurador acentua que “A implementação e efetivação de ações afirmativas no Brasil é instrumento legal e necessário a fim de equalizar uma desproporção histórica verificada em nossa sociedade, mormente nos acessos à educação e mercado de trabalho, embora entre ambos exista uma relação consequencial já há muito estudada e comprovada”.

Após apresentar, em seu texto, informações que acentuavam a desigualdade social no Brasil e dados da realidade atual da UENP, como a distribuição desigual dos alunos autodeclarados negros nos cursos de graduação da Universidade, escreveu que “Posto esses números, é de se concluir que a resolução que hoje é posta a análise, acerca da implantação de ações afirmativas em nossa instituição, não está a privilegiar uma(s) camada (s) social (s) em detrimento de outras, mas ao contrário, está a garantir que, de fato, todos aqueles que queiram acessar o ensino público, gratuito e de qualidade, possam fazê-lo em condições de efetiva concorrência”, enfatizou.

Última modificação: Quarta, 14 Junho 2017 09:37